Acessibilidade

Descrição de imagens: o invisível que faz toda a diferença no livro acessível

· Fernando Tavares

Ilustração representando a descrição de imagens em livros acessíveis

Resumo: A descrição de imagens em livros acessíveis exige profissional qualificado. IA pode ajudar, mas revisão humana é essencial para qualidade editorial.

Quando a Booknando começou a trabalhar com acessibilidade em livros digitais, há quase uma década, a descrição de imagens era tratada como um detalhe técnico, quase um item de checklist. Hoje, sabemos que ela é um dos elementos mais importantes para que uma obra seja verdadeiramente inclusiva. E mais: quando bem feita, melhora a experiência de todos os leitores, não apenas daqueles com deficiência visual.

A audiodescrição, termo técnico para a tradução verbal de elementos visuais, é regulamentada no Brasil pela ABNT NBR 16452. A norma estabelece critérios para garantir qualidade na produção, mas o que muita gente não sabe é que esses critérios se aplicam a qualquer contexto em que informações visuais precisem ser transmitidas de forma não visual. Nos livros, isso vai desde gráficos e diagramas até ilustrações e fotografias.

Segundo o IBGE, 18,6 milhões de pessoas no Brasil têm algum tipo de deficiência, o que corresponde a 8,9% da população. Dessas, aproximadamente 6,5 milhões têm deficiência visual grave (cegueira ou baixa visão). São leitores que dependem de descrições adequadas para acessar o conteúdo dos livros.

O que torna uma descrição adequada?

O PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) já inclui requisitos específicos de acessibilidade digital nos editais mais recentes. O documento de especificações técnicas para Educação Infantil, por exemplo, orienta que as descrições de imagem utilizem o atributo "alt" do elemento HTML ou técnicas descritas pelo DIAGRAM Center, iniciativa internacional que estabelece padrões para livros digitais acessíveis. Isso significa que editoras que participam do programa precisam entregar obras com descrições adequadas, ou correm risco de desclassificação.

Mas o que torna uma descrição de imagem "adequada"? A resposta depende de vários fatores. O público-alvo é o primeiro deles. Um livro infantil exige uma abordagem completamente diferente da usada em um livro técnico ou acadêmico. Nas obras para crianças, a descrição precisa capturar não apenas o que está na imagem, mas o tom, a emoção, a atmosfera da cena. Não basta dizer "um menino sentado numa cadeira". É preciso transmitir "um menino de camiseta vermelha sentado numa cadeira de balanço, olhando pela janela com expressão curiosa, enquanto a luz da tarde entra e cria sombras no chão de madeira". A sensibilidade editorial faz toda a diferença.

Já em livros técnicos ou didáticos, a precisão é o mais importante. Gráficos precisam ter seus dados descritos com clareza. Diagramas exigem explicação da relação entre os elementos. Fotografias científicas demandam vocabulário específico e correto. A W3C, consórcio que define padrões para a web, oferece uma árvore de decisão para texto alternativo que ajuda a determinar o que deve ser descrito em cada tipo de imagem. O DAISY Consortium, referência mundial em acessibilidade publicação, mantém um guia detalhado para descrições em EPUB.

A descrição não é uma tarefa trivial

É aqui que entra um ponto crucial: a descrição de imagens não é uma tarefa trivial. Exige conhecimento do conteúdo, compreensão do público, domínio da linguagem e, principalmente, sensibilidade para entender qual informação é relevante e qual é redundante. Uma descrição genérica demais não cumpre seu papel. Uma descrição extensa demais pode cansar o leitor e atrapalhar a experiência.

Nos últimos anos, ferramentas de inteligência artificial começam a surgir como possíveis aliadas. Plataformas como a Audiover, brasileira, propõem usar IA para gerar descrições automáticas de imagens e vídeos. Pesquisas acadêmicas, como as publicadas no Simpósio de Computação da SBC, mostram que a tecnologia tem potencial para imagens estáticas, especialmente em contextos científicos. A revista Ciência da Informação Express publicou estudo mostrando que IA pode tornar imagens científicas mais acessíveis, mas com uma ressalva fundamental: a revisão humana continua indispensável.

O risco da automação sem supervisão

E é nesse ponto que a Booknando quer chamar atenção. Ferramentas de IA podem acelerar o processo, podem ajudar a criar um primeiro rascunho, mas não substituem o profissional que entende do assunto. Uma descrição gerada automaticamente, sem revisão de alguém que compreende o contexto do livro, o público-alvo e os critérios de acessibilidade, corre o risco de ser tecnicamente correta mas editorialmente inadequada. Pior: pode ser enganosa ou simplesmente inútil.

Há casos em que a IA descreve uma ilustração infantil como "imagem abstrata com formas coloridas", quando na verdade aquela imagem representa um momento-chave da narrativa, com personagens e emoções que precisam ser transmitidos. Em livros técnicos, já vimos ferramentas descreverem um gráfico de barras como "gráfico com barras azuis e vermelhas", sem mencionar o que os dados significam, qual a tendência mostrada, qual a conclusão que o leitor deveria tirar dali.

Por isso, a recomendação é clara: se não houver um profissional qualificado para avaliar e refinar a descrição, é melhor não ter descrição nenhuma. Uma descrição ruim pode ser mais excludente do que a ausência dela, porque gera falsa sensação de acessibilidade e, na prática, não entrega a informação que a pessoa com deficiência visual precisa.

Formação e sensibilidade editorial

O caminho, então, é investir em formação. Profissionais que trabalham com produção editorial precisam conhecer os critérios básicos de descrição de imagem, que não são os mesmos critérios que usamos para escrever legendas ou textos alternativos para a web. Dependem muito do tipo de livro, do conteúdo, do objetivo da obra e, principalmente, do público-alvo. Um bom descritor precisa entender de linguagem, de narrativa, de design editorial e, claro, de acessibilidade.

A Booknando tem trabalhado com editoras de todo o Brasil para implementar fluxos de produção que incluam a descrição de imagens desde o início do processo, não como uma etapa final, quase corretiva. Quando a acessibilidade é pensada desde o projeto gráfico, o resultado é melhor para todo mundo: pessoas com deficiência visual têm acesso completo ao conteúdo, pessoas com deficiência intelectual se beneficiam de descrições claras e objetivas, e até a indexação para mecanismos de busca melhora, porque as descrições funcionam como metadados que ajudam a identificar o conteúdo das imagens.

Editoras que quiserem se aprofundar no tema podem consultar os guias do DIAGRAM Center, as normas da ABNT e os materiais do DAISY Consortium. E, claro, podem contar com a Booknando para entender como transformar essa necessidade em prática editorial real, com qualidade e respeito ao leitor.

Afinal, acessibilidade não é favor. É direito. E cada descrição bem feita é um passo para que mais pessoas possam acessar o conhecimento que os livros carregam.

Referências

  • ABNT NBR 16452:2016 — Acessibilidade na comunicação — Audiodescrição. Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2016. Disponível em: ABNT Coleção
  • ABNT NBR 17225:2025 — Acessibilidade digital para Web. Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2025. Disponível em: ABNT Coleção
  • IBGE — Pessoas com deficiência têm menor acesso à educação, ao trabalho e à renda. Agência IBGE Notícias, 2023. Disponível em: agenciadenoticias.ibge.gov.br
  • FNDE — Edital PNLD Educação Infantil: Especificações Técnicas e Acessibilidade. Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, 2024. Disponível em: gov.br/fnde
  • Booknando — Desenhando futuros inclusivos: a importância do PNLD. 2024. Disponível em: booknando.com.br/cases/pnld-digital
  • DAISY Consortium — Image Descriptions: Accessible Publishing Knowledge Base. Disponível em: kb.daisy.org
  • W3C — Write helpful Alt Text to describe images. Harvard University Accessibility, 2024. Disponível em: accessibility.huit.harvard.edu
  • Accessible Publishing — A Guide to Image Descriptions. Disponível em: accessiblepublishing.ca
  • DIAGRAM Center — Image Guidelines for EPUB 3. Disponível em: diagramcenter.org
  • Audiover — Plataforma inteligente para descrição de imagens e vídeos. Disponível em: audiover.com.br
  • SBC — Inteligência artificial para audiodescrição de imagens. Simpósio Brasileiro de Computação, 2024. Disponível em: sol.sbc.org.br
  • Ciência da Informação Express — Inteligência artificial pode tornar imagens científicas mais acessíveis, mas revisão humana continua essencial. 2024. Disponível em: cienciadainformacaoexpress.com
  • Bookwire — PNLD e livros acessíveis a todos. Blog da Bookwire Brasil, 2024. Disponível em: br.bookwire.net
  • MokLabs — EPUB Acessível: Guia completo para criar e-books inclusivos. 2024. Disponível em: moklabs.com.br
  • Medium Booknando — O ePub3 que o PNLD quer. 2024. Disponível em: medium.com/booknando
Fernando Tavares

Fernando Tavares

Fundador e CEO da Booknando. Coordenador de IA na Faculdade LabPub. Colunista do PublishNews. Mais de 20 anos no mercado editorial digital.

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