Para autores e editores que querem iniciar no digital

Para autores e editores que querem iniciar no digital

By | 20/07/2016 | 0 Comentários | 0

Já pensou que seus livros poderiam chegar bem mais longe do que você imagina? Você pode fornecer a leitores desconhecidos em lugares remotos o acesso ao conteúdo que você tem a oferecer, de modo simples e imediato.

A leitura digital, nos vários formatos possíveis, já é uma realidade, e você, autor ou editor, precisa conhecer mais sobre isso para entrar de modo consciente nestes novos modos de distribuição de conteúdo.

Falar de mercado de livros, ou de livros digitais, não é apenas discutir compra e venda, valores e lucros, distribuição ou rentabilidade: é também falar sobre a difusão do conhecimento e da cultura. Este conceito é melhor expresso pela lei universal dos conteúdos digitais, que afirma que o conteúdo é, e deve sempre ser, gratuito[1]. O que pode ser cobrado e, portanto “vendido”, é o packaging, ou seja, o serviço prestado que facilita o acesso a este conteúdo. Nesta ótica, as editoras e os autores não são simples vendedores de calhamaços de papel[2] e sim fornecedores de um serviço de acesso ao conteúdo através de um suporte impresso. Fica fácil compreender que os livros digitais são na realidade um outro meio de oferecer o mesmo serviço[3].

A questão dos formatos

O conceito de livro digital é muito amplo e apresenta-se em diversas formas, vestindo diferentes formatos conforme a tecnologia evolui, indo do simples texto TXT[4] aos mais modernos aplicativos móveis (os famosos APPs). Porém, no mercado atual, os formatos que mais se destacam são o ePub e o MOBI.

O ePub possui em prática três “sabores” diferentes: ePub2 fluido, ePub3 fluido e ePub3 com layout fixo. Antes da chegada do ePub3 existia também uma versão em layout fixo para o ePub2. Este formato foi criado pela Apple para aumentar o conteúdo para seu tablet iPad com livros digitais infantis. As especificações pensadas pela Apple foram acolhidas pelo IDPF e englobadas no ePub3 com layout fixo. Hoje em dia ninguém mais produz ePub2 com layout fixo.

É um formato open source, que nasceu com a intenção de criar um padrão para as publicações eletrônicas[5] e é administrado pelo consórcio IDPF[6]. O formato usa a linguagem HTML[7] como base para o texto e o CSS para a gestão do layout e design. Isto faz dele um formato que desfruta de uma tecnologia já consolidada na web. Já o MOBI é um formato proprietário da Amazon, mas que possui suas bases também no HTML.

O MOBI e o ePub, na versão com layout fluido, permitem que o texto e as imagens adaptem-se ao tamanho da tela, deixando a leitura mais confortável. O leitor tem a possibilidade de aumentar o tamanho da fonte ou trocá-la segundo o próprio gosto ou necessidade. Para pessoas disléxicas que podem usar uma fonte especial que facilite a leitura esta é uma vantagem impagável.

O formato mais conhecido e usado[8] é o PDF, que nasceu como suporte para a impressão e se tornou um modo de distribuir conteúdos online. O limite do PDF é o fato de possuir um layout fixo[9], imitando o livro impresso e dificultando assim a leitura em aparelhos móveis com telas pequenas. Este na realidade é o limite de todos os formatos com layout fixo. Uma solução bem confortável é o formato iBooks, da Apple, que no mesmo arquivo pode possuir uma visualização fixa e uma fluida.

Tabela com os formatos

O formato iBooks pode ser tanto fixo quanto fluido, no mesmo arquivo.

Livro de “verdade” é o impresso…

Gosto de classificar os formatos pela característica de fluido ou fixo. Esta distinção não é apenas técnica, mas tem a ver com o conceito de livro digital que o mercado possui. Estamos ainda em uma fase onde os formatos fixos são mais apreciados do que os formatos fluidos[10]. Não é incomum escutar editores afirmando que o ePub é um formato pobre porque não consegue manter a mesma formatação do livro impresso. Esta é uma ideia muito presente no mercado em vários níveis: o livro verdadeiro é o impresso e o digital é uma sombra dele.[11]

A questão dos formatos não é apenas um problema  técnico, mas tem a ver com o conceito de livro digital que o mercado possui

Se olharmos para a história podemos compreender que esta dificuldade em aceitar um novo modo de conceber o livro é algo compreensível. Depois que Gutenberg inventou os caracteres móveis e a impressão, muitos autores e leitores (e até mesmo o próprio Gutenberg[12]) acreditavam que o impresso deveria ser semelhante aos manuscritos[13]. Letra bonita e compreensível era aquela que imitava a manuscrita, e era comum a ideia de que o livro impresso fosse algo inferior ao livro manuscrito[14].

Este processo de adaptação ao digital vai levar tempo e irá ganhar formas que o mercado atual ainda não consegue entender.

Indo além das fronteiras

Estes conflitos de conceitos não são apenas discussões teóricas, mas repercutem concretamente no mercado[15], influenciando a precificação e a forma de distribuição. Atualmente o modelo adotado para a distribuição ou venda dos mesmos é muito parecido com o usado nos impressos.

Para quem está pensando em publicar no formato digital, é importante acreditar e mergulhar na inovação tecnológica que oferece grandes oportunidades de trabalho e crescimento. É preciso aproveitar as vantagens do digital, que oferece, por exemplo, a possibilidade de superar as barreiras da distribuição do produto livro, chegando onde o impresso não consegue (além de facilitar a internacionalização da cultura).

Um exemplo concreto desta internacionalização é o caso da pequena editora Itajara, que dará início à venda de livros infantis para o mercado japonês através da Bookwire e da loja da Apple.

Livro digital Aporé e Juvenal

Livro digital brasileiro traduzido para o japonês, produzido pela Booknando Livros e distribuído pela Bookwire.

Novos modelos de negócios

Entres as novas oportunidades que o digital oferece está o streaming de livros. Exemplo deste serviço é o oferecido pela Elefante Letrado, que disponibiliza a leitura de livros digitais infantis por assinatura, ou o Kindle Unlimited da Amazon e outras empresas brasileiras, como a Nuvem de Livros e a Árvore de Livros. Estão também nascendo formas alternativas de formatos de livros, como o projeto piloto Editions at Play apresentado pelo Creative Google Labs  em parceria com a editora Visual Editions, onde os livros realmente desfrutam das características que um suporte eletrônico pode oferecer.

Nesta perspectiva é muito interessante o trabalho que está sendo realizado pelo IDPF em colaboração com o W3C para a criação do ePubweb, um formato que aproveita melhor a plataforma web e os dispositivos móveis.

O digital – ou, na realidade, a própria Internet – facilitou muito o crescimento do fenômeno amado e temido da auto-publicação[16]. Cada vez mais, autores estão tornando-se seus próprios editores[17], publicando através dos vários canais que as grandes lojas oferecem[18] ou, até mesmo, com soluções alternativas de venda “porta-a-porta” (ops… email a email).

Leitura no celular

Outro ponto fundamental é o fato que a leitura digital é hoje uma leitura móvel. Com quase 100 milhões de smartphones no Brasil, a leitura em telas pequenas e móveis representa uma boa fatia do mercado de livros, que está sendo já trabalhada por editoras totalmente digitais, como a O Fiel Carteiro[19], a e-galáxia, a Estratosférica, entre outras.

Evolução

Estamos vivendo um processo de evolução no que diz respeito à forma como lemos e transmitimos o saber, e os livros, que sempre foram as bases do conhecimento, possuindo uma aura quase sagrada, também estão sendo influenciados por estas transformações que não sabemos exatamente onde irão chegar.


[1] Este post explica bem este conceito: http://questioncopyright.org/understanding_free_content

[2] Ricardo Cavallero, gerente geral da divisão de comércio de livros da Mondadori, já falava sobre isso no Segundo Congresso do livro digital em 2011.

[3] Provocação: “precisa desenhar?”

[4] Provocação: um texto completo e bem feito em formato txt, é ou não um “livro”?

Curiosidade: TequilaCat Book Reader era um aplicativo feito em Java que permitia a leitura de textos no formato TXT em aparelhos celulares. “Li muitos livros no meu Sony Ericsson W380” afirma a editora Mariana Calli.

[5] Dai a origem do nome eletronic publications.

[6] Veja o site: http://idpf.org.

[7] O ePub2 é baseado no XHTML 1.1 e o ePub3 no HTML5.

[8] No mercado de livros digitais em geral o PDF está caindo em desuso pelos motivos que veremos logo adiante. Porém continua sendo a forma mais comum de distribuição de conteúdo. É usado por Universidades para a distribuição de material online em cursos EAD, ou material suplementar em cursos presenciais; É usado pelo governo na distribuição de documentação. No exterior é usado para as documentações oficiais jurídicas nos processos informatizados; a União Europea usa o padrão PDF/A nas documentações oficiais. Existe uma associação, A PDF Association (http://www.pdfa.org) que trabalha na tentativa de implementar padrões internacionais para o formato, sobretudo como suporte de longa conservação para textos oficiais.

[9] Que por outro lado é também o seu ponto de força, sobretudo quando usado nos serviços de impressão.

[10] Somos dominados pela cultura do lucro. Quando este formato der mais lucro que o impresso, teremos uma enxurrada de editores convertidos chorando lágrimas de comoção.

[11] Livro digital bom e bonito é aquele que imita o impresso. Alguns editores já me pediram a simulação de virada de página com o barulhinho para simular o impresso!

[12] Sobre esta polêmica leiam o livro de Quantin J. Schultze, Gutenberg, God, and the Devil’s Plug-In: Lessons about Digital Publishing from the Famous Printer’s Failed Killer App. http://www.amazon.com.br/dp/B008HJGYHO

[13] Sobre este tema e sobre o nascimento da editoria recomendo o livro de Marzo Magno Alessandro, L’alba dei libri [http://www.garzantilibri.it/default.php?page=visu_libro&CPID=2829]

[14] Texto interessante sobre esta questão: http://www.dirittoestoria.it/4/Contributi/Mattone-Olivari-Libro-universitario-XV-secolo.htm#_ftn13 e o livro: Curzio Bastianoni, Giuliano Catoni, Impressum Senis. Storie di tipografi, incunaboli e librai, Siena 1988. [https://www.amazon.it/Impressum-Senis-storie-tipografi-incunaboli/dp/B00GYY15VE]

[15] Surgiram vários artigos sobre estas questões. Entre eles indico este de Felipe Leopoldo no PublishNews [http://www.publishnews.com.br/materias/2016/07/01/livros-eletrnicos-mercado-tradicional-e-etc]

[16] Sobre este tema: http://colofao.com.br/1806/publicacoes-digitais-independentes-e-as-relacoes-na-era-tecnologica/

[17] Sobre este fenômeno da autopublicação confiram o artigo do André Palme http://www.publishnews.com.br/materias/2016/07/07/talkin-bout-a-revolution

[18] Sinalizo aqui o Kobo Writing Life  (https://www.kobo.com/writinglife), o Amazon KDP (https://kdp.amazon.com) e o Publique-se da Saraiva (http://www.saraiva.com.br/publique-se)

[19] Sobre a leitura móvel e as vendas dos eBooks: http://www.publishnews.com.br/materias/2016/06/22/um-e-book-de-sucesso

ePub, formatos, livro digital, livros impressos, produção

Deixe uma resposta